segunda-feira, 23 de março de 2009

Hayashi, Shigueru


“Meus ancestrais tinham fábrica de saquê no Japão. Eu sou a quinta geração da família. E não tenho hábito de beber nada.”
(Shigueru Hayashi)


“A propriedade que meus pais deixaram no Japão quando vieram embora foi confiscada pelo governo após a guerra, só ficando a casa que uma prima apossou. Meu pai contava que a madeira da casa era tão pura e tão brilhante que você podia se “espelhar” nela para se arrumar. A casa tinha cerca de 300 anos.”
(Shigueru Hayashi)


A família de Shigueru Hayashi é de Okayama. O patriarca Kikuichiro e a matriarca Toshico Hayashi chegaram ao Brasil em junho de 1930, junto com sua mãe, Tome, seu irmão Kakuji e sua irmã Kazuko Hayashi. Foram estabelecidos na cidade de São Simão, na região Mogiana e trabalharam na lavoura. Mas não permaneceram muito tempo naquela propriedade. Se mudaram para Andirá onde tinham parentes e depois para Ourinhos, onde nasceu Shigueru, hoje com 73 anos, casado com Terumi, pai de Carlos Alberto Fumio Hayashi e de Elizabeth Midori Hayashi. “Minha família fugiu da guerra do Japão, antes de meu pai ser convocado para o exército. Em uma semana estavam a bordo do navio que os trouxe ao Brasil. Deixaram tudo lá e quando voltaram, foi apenas para rever familiares e passear. Tudo deles havia sido confiscado”, relata Shigueru, que ajudou o pai na lavoura até completar 20 anos. “Somos 6 irmãos. Eu, Paulo Eitiro, Lauro Mitharo, Olavo Koji, Rosa Hiromi e Hélio. Eu vim para Londrina em 1938, fui estudar no Colégio Hugo Simas. Nós tínhamos uma vida boa e tranqüila”, conta.
Aos 27 anos Shigueru casou-se com Terumi. “Eu precisava começar a vida e com a ajuda do sogro adquiri uma propriedade, era uma casa próxima ao Com Tour, onde residi por pouco tempo. Um amigo me chamou para trabalhar fora de Londrina e durante algum tempo fui funcionário de uma multinacional. Meu pai morreu em 1993 e minha mãe, quando eu ainda era criança. Tinha 5 anos, me recordo pouco dela”, conta.
Desde 1992, Shigueru dirige a empresa Persianas Hayashi. Membro da Igreja Messiânica, ele tem algumas histórias contadas pelo pai, bem vivas em sua memória. “Uma delas é que na região em que meu pai morava a sardinha era usada como adubo. Quando meus pais chegaram ao Brasil, viram que a sardinha era para comer no dia-a-dia, mesmo já morta. Ele também contava que na região do Japão em que viviam tinham o hábito de comer somente peixe vivo. Tiveram que se acostumar aos hábitos diferentes no Brasil. E tudo foi um choque para eles”, comenta.
O casal tem 3 netos: Beatriz, Gabriel e Luiza, filhos de Sandra e Carlos Alberto. “Gostaríamos de estar mais juntos. Porém eles residem em Ribeirão Preto. Mas quando possível, viajamos para visitá-los.”
Dona Terumi é dona de casa e tem um hobby: cuidar de plantas. Faz Bonsai e Ikebana. Tem uma infinidade de vasos. E pratica natação, além de acompanhar o marido aos encontros na Igreja Messiânica.

Hiraiwa, George


“Meu avô era um homem técnico, perpiscaz, inteligente. Foi um dos pioneiros de Londrina e seu nome estará gravado junto ao Mural na Praça do Centenário, quando será inaugurado dia 22 de junho de 2008. Aliás, junto com o nome do sr. Hikoma Udihara. Eles são os únicos que constam, estarem aqui em 1929. Meu avô foi um dos fundadores da Cooperativa Agrícola Cotia. Com um grupo de amigos fundou a primeira incubadora de ovos de Londrina. E deixou um grande legado de exemplo, caráter, determinação.”
(George Hiraiwa)



Kazuta e Kei Imagawa deixaram Hiroshima em 17 de abril de 1929 e desembarcaram no Brasil, numa manhã fria do mês de junho. Estavam a bordo do navio La Plata Maru, ao lado de centenas de imigrantes. Chegando a Santos foram para a região de Cambará, no Norte do Paraná, levando com eles pouca bagagem e um coração cheio de expectativas, sonhos e planos. Mas a vida na lavoura foi dura. Com eles vieram os filhos Akira, Hisako, Sawaiti e Shozo. Uma filha foi deixada no Japão. A história da imigração é contada pelo neto George Hiraiwa, grande empresário londrinense, casado com Elenice Mieko Hiraiwa, pai de Vitor, 21 anos, Gustavo, 19, e Leonardo, 13. “Meu pai, Tetsuya, foi o primeiro a nascer no Brasil. Depois de Cambará, onde trabalharam duro na lavoura, meus avós se mudaram para Jataizinho e em 1929 conseguiram comprar um lote de terra, hoje, o Jardim Imagawa. Meu avô foi um homem próspero, trabalhador, teve terras e uma granja. Participou da fundação da primeira escola japonesa de Londrina, foi um dos introdutores da uva Itália no Paraná, grande incentivador dos esportes, especialmente o atletismo. Meu pai e meu avô deixaram o ensinamento de estarmos sempre envolvidos com um esporte dentro da comunidade. Meu avô faleceu em 1977 e logo depois, minha avó, em 1980. Nós perdemos nosso pai jovem ainda. Minha mãe, Sayoko Hiraiwa Imagawa, tem 75 anos, mora comigo, é lúcida, ativa, dirige e é participativa nas atividades da comunidade nipo-brasileira”, comenta. George é formado pela Faculdade de Agronomia Lins de Queirós, em Piracicaba (SP), em 1982. Foi presidente da Acil (Associação Comercial e Industrial de Londrina) gestão 2000 a 2002, fundador do Sicoob Norte do Paraná (do qual é presidente). Também trabalhou ativamente nos preparativos dos festejos Imin 100 anos. Joga beisebol com os filhos na Acel e dirige as empresas familiares ao lado de mais três irmãos. “Roberto é casado com Regina, pai de Roberta e Renata. Jun é casado com Marta, pai de Camila, Carlos, Marcos e Marcelo. Edson é casado com Érica e tem um filho apenas, Eduardo. Nós temos empresas nas áreas de alimentação, telecomunicações, tecnologia da informação, distribuidora em ferramentaria de corte industrial, agropecuária e incorporadora. Estamos sempre juntos. Mesmo a vida sendo corrida para todos, fazemos questão de partilharmos tudo, sempre tendo minha mãe Sayoko, como a base e a estrutura familiar.” O último filho do casal imigrante Kazuta e Kei Imagawa, Hisao, casado com a senhora Hatue, tem três filhos: Érica, Márcio e Rinando. Eles moram na chácara Primavera, em Ibiporã.

Hirayama, Kozue
















“Meu pai era dotado de uma sensibilidade extraordinária que às vezes entrava em choque com a rígida educação que recebera no Japão. Criou os filhos tendo como base os valores fundamentais como respeito, integridade, moral e justiça, aliados a conhecimentos. Costumava dizer que a mente é um campo fértil que precisa ser cultivado com conhecimentos e bons pensamentos para não dar espaço às ervas daninhas.”
(Kozue Imai)


“Minha mãe viveu até os 99 anos de forma saudável e dinâmica, com o espírito alegre de uma criança. Deixou muitas lições de vida que sempre irão inspirar as gerações futuras pelo seu legado de entusiasmo. Por trás de sua figura frágil e delicada se escondia uma mulher forte e decidida capaz de enfrentar qualquer dificuldade. Deixou uma frase para reflexão: “Se você tiver tempo sobrando para ver os defeitos dos outros, vá olhar e cuidar do próprio cotovelo.”
(Kozue Imai)





Em setembro de 1936 a família Hirayama empreendeu a grande aventura que tinha como destino o Brasil. “Lá o dinheiro brota em árvore” foram as palavras ouvidas pelas famílias japonesas ávidas em busca de prosperidade e melhores condições de vida. Os tempos estavam difíceis no Japão. A primeira viagem a bordo do vapor Masato Maru, em 1908 (28 anos antes), trouxe cerca de 800 imigrantes. Porém os escassos recursos dos meio de comunicação da época não permitiam que se tomasse o conhecimento da difícil realidade. “Munidos de esperança e ilusão, meus pais embarcaram no dia 15 de setembro e chegaram ao Brasil em 30 de outubro de 1936. Meu pai, Shizuo, tinha 31 anos e era carpinteiro. Minha mãe, Massano, dona de casa, tinha 29 anos. Traziam com eles não apenas a esperança, mas também os 5 filhos menores, o mais velho com 10 anos e o mais novo com apenas 9 meses. Pela ordem decrescente de idade, Shizuma, Satiko, Fusako, Soiti e Emiko.” Quem relata a história da família é Kozue Imai, filha do casal imigrante, empresária, à frente da indústria metalúrgica Maringá Soldas S.A., em Curitiba, e da Artenge Construções Civis Ltda., em Londrina.
Chegando ao Brasil, a família Hirayama foi encaminhada com seus poucos pertences às regiões cafeeiras no interior paulista. “Meus pais contavam que as acomodações eram minúsculas, malcheirosas e sem piso, eram divididas com outras famílias, às vezes de outra procedência e nacionalidade. Eles sofreram as agruras de um trabalho para o qual não estavam preparados, sofreram as diferenças culturais que envolviam o idioma, os costumes e a alimentação, esta última muito sentida pelas características dos hábitos alimentares brasileiros, opostos aos japoneses que apreciavam verduras, legumes e peixes”, relata Kozue.
A filha relembra as histórias contadas pela mãe, dona Massano, que viveu até os 99 anos. “Ao deparar pela primeira vez com a mandioca, sem a casca escura, que uma sitiante local carregava, ela correu para dentro de casa, apanhou alguns cosméticos que tinha trazido do Japão e ofereceu em troca daquilo que ela julgava ser nabo. Como a segunda camada da mandioca não havia sido retirada, foi difícil comer de tão amarga. Meus pais sentiam muita falta de verduras, chegando ao ponto de preparar um mato chamado picão para se alimentar”, revela.
Depois de cumprido o tempo acordado entre os dois povos para a colheita de café, a família buscou novas oportunidades de trabalho, arrendando terras para outros cultivos como algodão, arroz, amendoim e batata. Por ser carpinteiro, o patriarca Shizuo construía ou reformava a casa que iria acolher a família em cada local que chegava. “A família cresceu e em 1953, éramos doze filhos com os pais”, conta Kozue.
Um período de grandes dificuldades ocorreu no tempo da Segunda Grande Guerra. Tendo o Brasil se aliado aos Estados Unidos contra a Itália, Alemanha e Japão, os imigrantes eram tratados como inimigos dos brasileiros. A escassez de alimentos básicos, inclusive o sal, fazia com que as famílias extraíssem o sal das sardinhas salgadas. Houve o fechamento das escolas que ministravam aulas de japonês e queima de livros escritos em japonês, em praças públicas. “E o mais absurdo do cerceamento da liberdade, foi a proibição de usar o idioma em local público, o que era motivo de prisão. Após a derrota do Japão pelos americanos, era proibido entoar o Hino Nacional do Japão no próprio país e em todos os quadrantes da Terra. No dia primeiro de cada ano, seguindo a tradição japonesa, meus pais reuniam a família para a oração e o canto do hino, em frente à imagem do imperador e da imperatriz do Japão. Mas tudo escondido”, recorda.
A chegada da família Hirayama ao Paraná foi em 1952. Primeiro em Jataizinho, onde montou um comércio que na época era chamado de Secos e Molhados. “Depois, em 1960, meus pais, pensando nos estudos dos filhos, mudaram-se para Londrina. Esta cidade que tão bem nos acolheu foi, até os últimos dias de vida dos meus pais, a “Londorina” do coração”, conclui.
São filhos do casal Hirayama: Shizuma, Satiko, Fusako, Soiti, Emiko, Assao, Takao, Tadao, Miyuki, Toshio, Kozue e Sanae.
Eles tiveram trinta e dois netos: Nelson, Marisa, Yoshihiro, Fumiko, Hiroshi, Die, Yukio, Yoko, Kazuo, Kenji, Cristina, Paulina, Jorge, Francisco, Lurdes, Eurico, Hélio, Marcia Mirtes, Michelle, Lincoln, Aneci, Vanessa, Erick, Geisly, Ricardo, Glauco, Cássia, Mayra, Edila, Silvia, Rosane e Wagner. São quarenta e um bisnetos e dois trinetos até abril de 2008.

Imazu, Lúcia Emiko


“Meus pais fizeram questão de manter as tradições culturais do Japão. Desde a minha infância aprendi a falar fluentemente o idioma japonês, que ainda hoje uso muito, seja por necessidade no trabalho, seja como um carinho com os idosos que me procuram. Isto é uma forma de preservar a minha origem.”
(Lúcia Emiko Imazu)


“Tenho a satisfação de trabalhar há 15 anos com o Padre Haruo Sasaki, no projeto que talvez seja o seu maior legado: a Associação Filantrópica Humanitas, que cuida de pacientes com hanseníase e outras doenças dermatológicas. Quase todo o serviço oferecido é gratuito e a dedicação do padre Sasaki serve de exemplo como determinação, perseverança e amor ao próximo.”
(Lúcia Emiko Imazu)




Sadatoshi Imazu não se lembra de sua viagem a bordo do navio Rio de Janeiro Maru no ano de 1933. Com apenas 1 ano de idade, ele desembarcou no colo dos pais, com mais cinco irmãos. No Brasil a família aportou, trazendo na bagagem poucas peças de roupa, recordações infinitas de Fukuoka e grandes perspectivas por uma vida melhor.
Fukuoka hoje conta com uma população superior a 1 milhão de habitantes e é a capital da província do mesmo nome. Ocupa uma posição importante na administração, educação e comunicação da Ilha, mas naquela época a realidade era muito diferente. As famílias japonesas imigrantes deixavam a terra de origem em busca de condições melhores de vida. E com o clã Imazu não foi diferente. Quem relata a trajetória da família é a médica dermatologista Lúcia Emiko Imazu, que divide seu tempo com o consultório em Londrina e com a Associação Filantrópica Humanitas, em São Jerônimo da Serra, dirigida pelo padre Haruo Sasaki.
Ao chegar ao Porto de Santos, a família Imazu foi direcionada para o Estado de São Paulo. “Meus avós Shizu e Komataro Imazu foram levados para a fazenda Anhumas, na Estação Guariba. Por 3 anos foram colonos, depois se tornaram arrendatários no município de Taiassu. Mas foi em 1940 que eles compraram as primeiras terras em Pirianito, aqui no Paraná, e que atualmente é a cidade de Uraí. A família vivia da lavoura e o avô Komataro queria que ele fosse fotógrafo como o irmão, mas o meu pai se interessava e gostava da parte elétrica de automóveis”, relata Lúcia.
Assim, o pequeno imigrante Sadatoshi cresceu e muito jovem decidiu deixar a lavoura para tentar a vida na cidade como aprendiz de eletricista, aos 20 anos. Finalmente, em 1956, ele abriu a própria oficina que mantém até hoje: a Auto Elétrica Imazu. Sadatoshi casou-se com Miyoko Ishikawa, nissei, nascida em Assaí e com quem teve quatro filhos: Lauro Toshiya Imazu, Maurício Shoji Imazu, Lúcia Emiko Imazu e Mário Akio Imazu. “Meus pais acabaram fixando residência em Rolândia, onde fizeram vasto círculo de amigos. A oficina completa 52 anos.” Em 1988, Sadatoshi recebeu uma homenagem do Ministério do Exterior do Japão pelos relevantes serviços prestados à comunidade japonesa.
Lúcia Imazu tem boas lembranças de sua infância e relata com carinho a dedicação dos pais em prol da família. “Na simplicidade da oficina e com muita determinação meus pais educaram os quatro filhos. Eu e meus irmãos fomos criados num ambiente onde se falava japonês. Aprendemos naturalmente.” Hoje, Sadatoshi, 76 anos, e Miyoko, 71 anos, estão bem, ativos na sociedade nipônica e gostam de ter os filhos e netos por perto. “Sempre estamos com eles”, conta Lúcia, que já esteve no Japão e se prepara para uma próxima viagem ao Oriente.
Formada na Universidade Estadual de Londrina, fez residência em dermatologia em Bauru (SP) e foi bolsista pelo Mombusho na Universidade de Kyoto. Atualmente, desenvolve importante trabalho na área de pesquisa em hanseníase e leishmaniose junto à Associação Filantrópica Humanitas. Lúcia tem duas filhas: Vanessa Monami, com 13 anos, e Andrea Erina, com 11. Os avós maternos de Lúcia, Shizuko e Tsutomu Ishikawa, são provenientes de Hokaido. Vieram para o Brasil recém-casados e aqui tiveram todos os filhos.

Inada, Eduardo


“Meus pais vivenciaram uma história de luta e trabalho para me criar em tempos difíceis, desafiando costumes, idioma e tradição. Hoje tenho o prazer de tê-los ao meu lado, morando comigo, podendo oferecer-lhes uma vida tranqüïla e de qualidade.Se tive condições de estudar e me tornar um bom profissional, devo muito a eles.”
(Eduardo Inada)




Endiro Inada tem 92 anos e veio imigrante para o Brasil com 12 anos. Quicue Inada tem 87 anos, é nascida no Brasil. O casal mora com o filho, o médico Eduardo Inada, e diariamente faz a sua caminhada pelas ruas tranqüilas do elegante condomínio Royal Golf.
A história do casal Inada, no Brasil, começou em 1928, quando ele deixou o Japão e aqui aportou na manhã fria de 16 de junho de 1928. “Nós deixamos o Porto de Kobe em 21 de abril de 1928, a bordo do navio La Plata Maru. Meus pais resolveram vir para o Brasil devido a problemas familiares”, relata o imigrante Endiro.
Kio e Sensuke Inada, pais de Endiro, tinham uma vida próspera e boa no Japão até o tio colocar tudo a perder. “Até os meus 7 anos de idade nós vivíamos muito bem. Meu pai chegou a servir o exército japonês e trabalhou na agricultura. Eu tive 5 irmãos, sendo que 3 nasceram no Brasil. Quando aportamos no Brasil começou uma vida de trabalho árduo na região de Araraquara (SP), na Fazenda Glória.Trabalhamos na colheita de café e não tinha descanso. Era de sol a sol, sábado, domingo, todos os dias. Uma vida de muito trabalho, de muita luta. Um dia, meu pai caiu da escada e quebrou a mão. Ficou muito tempo parado e aí, éramos eu e meu irmão para dar conta de 5 mil pés de café. Não foi fácil”, conta.
Na Fazenda Glória a família ficou durante 1 ano e 8 meses. De lá foram para Promissão, onde permaneceram durante 22 anos. “Meu pai morreu em 1941, com 52 anos, na Fazenda Barra Mansa. Apesar de trabalhar na enxada, eu procurei estudar e progredir. Fiz curso de contabilidade por correspondência e sempre fui muito trabalhador e responsável. Nós viemos para o Paraná em 1952. Já estava casado com Quicue e tinha o Eduardo pequeno. Em Bela Vista do Paraíso assumimos uma fazenda de 500 alqueires, onde eu cuidava da administração e da contabilidade’’, conclui Endiro.
Quicue Inada é uma simpática senhora, falante, lúcida, professora primária aposentada. Seus pais são de Hiroshima. Perdeu a mãe, Quoito, com 14 anos. “Meu pai, Rikio Sakuda, casou-se novamente e eu tive 6 irmãos. Fui professora primária do ensino fundamental na zona rural e dava aulas na própria fazenda onde morava. Em 1985 a fazenda foi vendida e nos mudamos para Londrina. Aqui, moramos inicialmente no centro e dei aulas no Kumon até cerca de um ano, quando parei por problemas de saúde. Mas sinto falta de ensinar. Era o meu maior prazer”, relata.
O único filho do casal, Eduardo Inada, é casado com Marina e tem três filhos: Denise, que é dentista, Daniel, médico, e Cláudia, administradora de empresas. “Me sinto privilegiado, pois meus pais sempre procuraram-me dar bons estudos. Cursei o colegial no Colégio Salesiano, em Lins, e me formei em 1972, na primeira turma do curso de Medicina da Universidade Estadual de Londrina. Gosto de ter meus pais comigo. Apesar de bem idosos, participam do dia-a-dia na casa, são lúcidos. A gente sempre acaba aprendendo com eles. Meus pais são católicos praticantes. Sou da quarta geração da família Inada que teve início em 1830. E nossa história tem que ser preservada a cada geração”, conclui Eduardo.

Kamiguchi, Seiichi


“Eu me lembro das festas de São João que fazíamos na fazenda. E onde todos nós, ainda crianças, participávamos. Minha vida foi voltada à agropecuária. Sempre ajudei meu pai, por isso não fiz faculdade. Como filho mais velho, precisava ajudar em casa e contribuir com os estudos dos meus irmãos.”
(Seiichi Kamiguchi)


Era uma manhã gelada de junho quando o navio África Maru aportou em Santos. Entre centenas de imigrantes estavam Naokichi e Fujino Kamiguchi, ele, com 43 anos, ela com 33 anos, mais os quatro filhos. No Japão, na Província de Kagoshima Ken, o imigrante Naokichi trabalhava na agricultura. No Brasil eles esperavam dar continuidade ao trabalho braçal, junto à lavoura, esperando prosperar e quem sabe, futuramente, retornar ao País de origem.
Chegando a Santos, a família foi enviada ao Norte do Paraná, na cidade de Maringá. Lá eles ficaram 3 anos, mudando-se para Mauá da Serra onde fixaram residência e onde atualmente residem os filhos Seiichi, Hiroshi, Minoru, Takeshi, Carlos e Osvaldo com suas respectivas famílias. Todos se dedicam à agropecuária. Dona Fujino faleceu em 2004 e o senhor Naokichi, em 1970. Em menos de uma década, Seiichi Kamiguchi ampliou sua propriedade e começou a produzir soja, trigo e cereais. Se tornou próspero e ganhou prêmios como o de melhor produtor de sementes de trigo, dado pela extinta Cooperativa da Cotia.
“Meu pai contava que precisou trabalhar duro na lavoura de café, carpia, colhia. Em Mauá da Serra, nós plantávamos tomate, cebola e arroz. Depois compramos um terreno e começamos a desbravar terras. Eu, como filho mais velho, ajudava meus pais e por isso, deixei de estudar. Meus irmãos estudaram. Minoru, já falecido, em 1995, era agrônomo. Carlos também é agrônomo, Takeshi é administrador de empresas, Osvaldo é técnico em agropecuária”, relata o filho mais velho, Seiichi.
Dona Fujino, depois de viúva, retornou várias vezes ao Japão para visitar os familiares e participar de encontros de budismo. “Minha mãe era budista e fazia questão de preservar sua crença com rituais. Temos altar e a família fala japonês. Procuramos manter as tradições. Eu participo de um grupo de poesias, Haiku Senryu, tendo ganhado vários prêmios. Herdei da minha mãe essa vocação. Ela sempre escrevia cartas e tinha uma redação linda. Ela foi premiada no concurso Ienohikari, que significa “Luz do Lar”,” completa.
Takeshi, quarto filho do casal imigrante, depois de formado viajou aos Estados Unidos, onde permaneceu como intercambista durante um ano. Shiroshii, concluiu apenas o primário e trabalhou muito abrindo terras. Carlos é sócio de Shiroshii na fazenda e participa do conselho fiscal da sede da cooperativa Integrada. Minoru, em 1977, ganhou bolsa para a Província de Kagoshima, onde estudou durante um ano. Foi representante da Cotia, regional de Mauá. Viajou para os Estados Unidos a fim de fazer estágio e depois atuou como diretor da Cotia. Em seguida fundou a Copanor, com sede em Londrina. Fez um bela carreira, mas, infelizmente, faleceu ainda jovem, com 42 anos.
Seiichi é casado com Yuki, pai de Fernando. Hiroshi é casado com Rosa Tieko, pai de Alberto. Minoru é casado com Alice, pai de Key e Ayumi. Takeshi é esposo de Izabel, pai de Aika, Mika,Miyuki e Shin. Carlos é casado com Marta e tem apenas um filho, Kiyushi.
Entre as diversas funções de Seiichi, está a presidência da Associação Cultural e Esportiva de Mauá, exercida em 1992. Também foi vice-presidente da Aliança Cultural Brasil-Japão do Paraná, em janeiro de 2000 e, em agosto de 2002, representou a América do Sul no Encontro Mundial dos Adeptos de Higashi-Honganji (um dos ramos do budismo japonês), em Campinas.

Kamiji, Lúcio


“Minha mãe sempre falou para nós estudarmos, pois era a principal herança que poderia deixar para os filhos. E que não era para nós esperarmos bens materiais. Mas para adquirirmos conhecimento.”
(Lúcio Kamiji)




Era o ano de 1920 quando o imigrante Junkiti Kamiji e a esposa, Makie Miyamoto Kamiji, deixaram a Província de Wakayama Ken, no Japão, e aportaram em Santos. No coração, a saudade das filhas mais velhas que ficaram na cidade de Irokawa Ono, era dividida com o sonho de prosperidade no Brasil. O casal, que trabalhava na agricultura, no Japão, encontrou no Brasil tempos difíceis, árduos, de muito trabalho na lavoura. Quem relata a história é o neto Lúcio Kamiji. “Meus avós, como a maioria dos imigrantes, residiram a princípio na região Mogiana, no interior de São Paulo. Depois foram para o município de João Ramalho (Quatá), sempre trabalhando na agricultura. Em cada local ficavam em torno de 7 anos. Meu avô tinha um espírito aventureiro e desbravador. Minha avó costumava dizer que todas as vezes que melhoravam financeiramente, meu avô resolvia se mudar. Mas foi apenas em 1934 que vieram para o Norte do Paraná. Primeiro, residiram em Bandeirantes e depois, em Rolândia, onde meu avô trabalhou para formar as plantações de café. Em Rolândia, minha avó comandou o primeiro empreendimento fora da agricultura, uma casa de secos e molhados. Em 1941, continuando a saga dos 7 anos, foram para Sabáudia, onde, já com os filhos maiores, continuaram a trabalhar na agricultura, até 1964. Depois seguiram para Arapongas onde ficaram até 1968. Meus avós mudaram-se para São Martinho (Distrito de Rolândia), com o filho Yoshio, meu pai. Apesar da tradição firmar que o filho mais velho é quem deveria cuidar dos pais, não foi o que aconteceu com Makie e Junkiti.” O casal viveu o resto da vida em São Martinho, onde está sepultado. Eles tiveram os filhos Yoshio, Katsue, Missae, Yasuyuki, Maria, Yasue, Tetsuo e Miyoshi.
Em Arapongas a família Kamiji teve um posto de gasolina e propriedade rural. “Nesta época, a família era grande e todos os filhos já tinham suas respectivas famílias. Foi quando todos começaram a se redistribuir pelo país, tendo o primogênito ido para São Paulo, onde já morava uma das irmãs. Outras irmãs posteriormente também foram para lá, nas cidades de Suzano e Jordanézia. Uma outra foi para Dourados (MS) e outra, ambas falecidas, continuou a saga na zona rural em Sabáudia.
Yoshio Kamizi casou-se com Matsue Anami Kamizi, em 1949, e tiveram 5 filhos: Adhemar Akashi Kamizi, Iracy Satomi Kamizi, Elza Reiko Kamizi, Lúcio Kamiji e Márcia Marie Kamizi. “Em 1962 meus pais mudaram-se de Arapongas para Rolândia e, em 1966, foram para São Martinho (distrito de Rolândia). Lá eles tinham o “Bar e Restaurante São José”. Meus pais trabalharam muito para dar educação e estudos aos 5 filhos. Nesta época, minha mãe nos alertava a estudar e buscar conhecimento. Meu pai morreu novo, com 60 anos, teve um AVC hemorrágico, apenas 6 meses depois de enterrar a sua mãe. Parecia que já tinha cumprido a sua missão neste plano. Minha mãe, Matsue, continuou o negócio até 1992 e depois mudou-se para Londrina, residindo na rua Piauí até hoje. As minhas irmãs estão no Japão trabalhando e o meu irmão, após anos trabalhando como bancário no Banco do Brasil e posteriormente num estabelecimento comercial no ramo de ótica, foi para Camboriú onde está gerenciando um restaurante”, conta Lúcio.
Os avós maternos de Lúcio são Hideji e Ito Anami. “Eles imigraram em 1910, a bordo do navio Ryojun Maru. Moravam em Kumamoto Shi, na província de Kumamoto Ken. Meu avô era agricultor e minha avó, filha de samurai. Tiveram os filhos Takashi, Kikue, Katashi, Yoshie, Takeshi, Kiyoshi, Tieko, Haruko, Matsue e Tadashi. Eles também foram enviados para a região Mogiana e depois para Rancharia, no interior de São Paulo, onde permaneceram até 1947, quando finalmente mudaram-se para Londrina. Ambos já faleceram. Os tios (Takashi e Kiyoshi) continuam morando aqui em Londrina até hoje”, comenta Lúcio, que veio para Londrina em 1975, estudou no Colégio Vicente Rijo e em 1980 formou-se em Administração de Empresas na Universidade Estadual de Londrina. Desde 1985, é professor da UniFil (antigo CESULON) para os cursos de computação (Ciência da Computação e Sistemas de Informação). Virou empreendedor desde 1987, atualmente participa como sócio das empresas CONSYSTEM Consultoria e Sistemas e da AUDARE Engenharia de Software, ambas no ramo da Tecnologia da Informação.
Lúcio é casado com Lúcia Akemi Tokunaga Kamiji. O casal tem dois filhos, Danielle e Danilo. “Minha mãe tem 73 anos, é aposentada e desfruta da companhia dos filhos e netos. Tenho muito orgulho de ser seu filho. Ela nos criou em meio a lutas e nos deu boa educação. Todos os filhos estudaram. Foi sempre esse o objetivo principal dos meus pais. E que foi cumprido”, conclui.